MEU QUERIDO PAI NATAL

30-12-2021 | 12:12 | | |

MEU QUERIDO PAI NATAL

Escrito por Filipe Bastos

Escrevo todos os anos ao Pai Natal. Em miúdo, era, normalmente, para lhe pedir um brinquedo que via ser utilizado por outra criança e que os meus pais não tinham possibilidades económicas para mo dar. Conforme fui crescendo, as cartas passaram antes a conter desabafos. Deixei de lhe fazer pedidos e passei a usá-lo como psicólogo. Creio, no entanto, que ele gostava mais das minhas cartas em criança do que as de agora. Naquela altura, eu zangava-me muitas vezes com ele, porque, normalmente, o meu pedido nunca era atendido. Agora, creio que é ao contrário: é ele que fica zangado comigo, uma vez que as cartas que lhe mando são normalmente desabafos da vida, queixinhas do quotidiano, que ele, na maioria das vezes, obviamente não pode dar resposta. Sim, eu sei disso, mas insisto. Muitas vezes lhe tenho falado da miséria que o mundo vive. Económica e, sobretudo, social. Falo-lhe dos ‘sem abrigos’ que cada vez são mais. Nas ruas e praças deste país. Digo-lhe também da falta de equidade na justiça: dos que vão para uma prisão em que os direitos humanos são muitas vezes atropelados e os que, como no caso de Manuel Pinho, ficam ‘presos’ com pulseira electrónica, numa vivenda no Algarve, com piscina aquecida (!) O ano passado falei-lhe muito da doença que apoquenta o Mundo e parti até do princípio que este ano não tinha que repetir o tema. Mas, infelizmente, lá lhe falei outra vez de uma tal ‘Ómicron’ que veio estragar o Natal não só aqui, neste cantinho à beira-mar plantado, mas, de uma forma geral, em todo o Mundo. Enfim, lamúrias. Muitas. Por isso, ele não me responde. Deve dizer lá para ele, “Ok, Filipe, escusas de me escrever porque eu sei disso tudo, mesmo vivendo na Lapónia”. Eu é que me habituei a escrever- -lhe nesta altura para o alertar. Acho que se não o fizer, o Mundo pode ficar ainda pior.